As Tardes Eram Mais Claras. Os Sorrisos, Mais Felizes

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No final da aula, alguém avisava que minha avó havia chegado. Em meio a algazarra, eu saltitava da cadeira mais rápido que as batidas do meu coração e me dirigia ao final da sala para pegar meu pequeno guarda-chuva, uma prevenção desnecessária porque jamais choveria naquelas tardes, pelo menos em minhas lembranças… “Magno, venha cá!”, era a última ordem do dia de Amanda, uma bela e imperativa morena de olhos e cabelos castanhos, que era concluída com um beijo em meu rosto. Esses beijos que entortaram os meus passos até os dias de hoje.

Do lado de fora eu via o sorriso que tornava as tardes mais ensolaradas. O olhar que me aquecia de ternura, que impedia que qualquer gota de água caísse do céu para atrapalhar nosso trajeto para casa. Eu me aproximava da minha avó e oferecia o lado do rosto que ainda não havia sido beijado. Completo no amor.

A caminhada para a casa era o ponto alto do meu dia. Geralmente era quando eu vivia os mais extraordinários acontecimentos, como ver um lagarto me observar fixamente do alto de algum muro ou um gato que me deixava chegar perto o suficiente para eu achar que poderia pegá-lo, apenas para fugir quando eu começava a ficar apavorado com a ideia de que realmente pudesse pegá-lo. As frágeis mãos enrugadas da minha vó, que seguravam firmemente as minhas, me passavam uma dupla impressão que conviviam em perfeita harmonia: ela estava me protegendo e estava sendo protegida por mim. Com cinco anos eu poderia enfrentar qualquer monstro, mutante ou alienígena para protegê-la, seres obscuros que jamais ousariam me enfrentar naquelas tardes de tanta luz.

Pelo caminho, em direção a um sol que começava a nos brindar com o crepúsculo, orgulhosamente eu lia as minhas primeiras palavras. A expressão da minha vó naqueles momentos era uma coisa radiante, uma imagem que carrego como um quadro e o terei dentro de mim até chegar o dia de me despedir de todos nesta grande caminhada.

Um dia estava tendo dificuldades para ler uma palavra escrita na parede. Pedi a ajuda dela que, sem nenhum constrangimento, disse que não tinha aprendido a ler, que nunca pôde frequentar escola quando era criança e que agora sentia falta disso, mas estava velha demais para aprender.

Aquilo me deixou terrivelmente abalado e inconformado. Eu precisava fazer alguma coisa. Naquela tarde, ao chegar em casa, não fui brincar como de costume. Abri o livro com as atividades de soletrar e disse para minha avó que iria ensiná-la a ler, que ela não era velha para isso e que tinha umas palavras que eu não conhecia, mas poderíamos pedir ajuda a minha mãe. Ela colocou na mesa uma cesta com biscoitos, com um copo de café para ela e um com vitamina de banana pra mim, e com seriedade prestou atenção em toda a aula, como se eu fosse um respeitado professor titulado, me cobrindo de beijos entre uma sílaba e outra. A aluna mais terna do mundo. Eu, concentrado em lembrar todas as dicas da tia Jean, a professora do Jardim Dois que me alfabetizara, me sentia naquele momento a pessoa mais importante do mundo.

Ontem, quase trinta anos depois, estava sentado com meu filho quando ele me pediu para ensiná-lo a ler. Sentamos na mesa e lembrei das minhas primeiras lições como professor, regadas a biscoitos e vitamina de banana, com minha vó que já não está aqui, que partiu levando um pouco do brilho das tardes, mas me deixou um afeto que não cabe em mim, proliferou e deságua em amor sobre o meu pequeno garoto. Foi ele, com seu olhar curioso e carinhosos beijos espontâneos de felicidade, entre uma sílaba e outra, que me fez sentir novamente a pessoa mais importante do mundo, que me fez lembrar de tudo isso com lágrimas nos olhos.

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Published in: on julho 11, 2017 at 7:52 pm  Deixe um comentário  
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