O BATERISTA DE PIJAMA

5c04c57062d935954308684a7c9d94af--music-wall-art-drummersAqueles que não o consideram o maior baterista da história não conseguem sentir a paixão que oxigena as batidas de uma música, ou não o ouviram tocar. Pesa contra ele o fato de ter tocado em apenas duas bandas, com o mesmo guitarrista limitado, ambas com uma carreira mais marcada por sonhos inconcretizados do que propriamente por apresentações, que talvez não chegaram a duas dezenas.

Mas como era bom ouvi-lo tocar! A fúria comovente que trucidava baquetas e entortava pratos, carregava aquelas músicas dos mais variados sentimentos existentes na escala entre o amor e o ódio, tudo isso depositado e expurgado na esfacelada bateria azul, que resistia bravamente às pancadas do peso de toda uma existência. Alguns reclamavam que a bateria estava sempre visceral, mas eu enxergava aquilo como o pulsar de um grande coração que sentia tudo da forma mais intensa e sincera.

Certa vez sua banda estava em crise. O guitarrista e o baixista, que também era o vocalista, não estavam mais se falando, e eles não ensaiavam há semanas. Quem mais sofria, sempre em silêncio, era o baterista. Todos aqueles sentimentos reprimidos dentro de si.

Um dia, nesta época, por volta de meia-noite, ele recebeu uma ligação. Era o vocalista da banda. Ele estava em uma festa de rock em que o guitarrista também estava, e o promotor da festa, tendo encontrado ambos, estava usando todos argumentos possíveis para fazê-los tocar neste evento. Era uma ideia que nem passava pela cabeça dos dois, mas diante de todos os contra-argumentos refutados, como não estar com a guitarra (“eu arranjo!”), não estar com o baixo (“pegue o meu!”), só sobrara informar que o baterista talvez estivesse dormindo (“Pegue meu telefone e ligue pra ele!”). Ele não estava e, definitivamente, queria tocar.

Menos de quinze minutos depois, sob olhares atônitos, chega o baterista ainda com roupa de dormir e um Homem-Aranha de pelúcia nas mãos. O guitarrista e o baixista se fitaram e sorriram um para o outro pela primeira vez em muito tempo. A banda existiria pela última vez.

O baterista sobe ao palco encarando a bateria com um olhar de serial killer e eu lembro de ter sentido muita pena do instrumento. A expectativa já era grande entre o público enquanto todo mundo acompanhava hipnotizado o boneco de pelúcia ser amarrado ao lado da caixa de retorno. O baixista e o guitarrista estavam meio que desesperados com a expectativa que passara a existir sobre a banda, que já não era um primor de técnica e estava há vários dias sem um único ensaio. Mas todo mundo só queria ver o baterista de pijama ensandecido, devorador de baquetas e aniquilador de pratos. Para conforto dos outros integrantes da banda, que faziam um esforço sobre-humano para acompanhar o ritmo incessante do baterista, na oitava música não havia mais nenhuma baqueta e o show acabou.

O baterista de pijama foi ovacionado e o cachê da banda penhorado para reforma da bateria.

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Published in: on julho 19, 2017 at 2:33 pm  Deixe um comentário  

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