NATAL

Prezados colegas acadêmicos da constelação de Órion. Como é de conhecimento de todos eu estou no planeta Terra há 26 anos concluindo minhas pesquisas para elaboração do meu mestrado com tese baseada sobre este pequeno planeta verde-azulado da Via Láctea.

Como ainda falta um pouco para a conclusão estou enviando este artigo sobre uma das festas populares mais divertidas e esquisitas do planeta Terra: o Natal.

Na verdade o Natal é a celebração do nascimento de um cara chamado Jesus Cristo, que nasceu há mais de dois mil anos, e pregava a paz, o amor e uma grande lucidez interior. Curiosamente é a época do ano em que os terráqueos mais se entorpecem, morrem em desastres de trânsito e consomem desenfreadamente.

A música natalina também possui uma grande particularidade. São musiquinhas bonitas, fáceis de cantarolar, mas que se repetem tão incessantemente, se tornando tão insuportáveis, que no primeiro ano que eu estive na Terra por pouco eu não cometi suicídio.

Mas o que torna o Natal verdadeiramente divertido, principalmente para um estrangeiro como nós, é o fato de no Natal os terráqueos se policiarem a serem pessoas boas, generosas, compassivas e altruístas, ou seja, tudo que não é da natureza deles. Acaba que no mês de Dezembro qualquer visitante extraterreno disfarçado de terráqueo, por menor dissimulação que possua, passa tranquilamente despercebido. Qualquer terráqueo por esta época parece qualquer coisa menos um deles de verdade.

Meio que sem querer eu acabei contribuindo para essa bela festa terrena. A nossa saborosa galinha trinocular de Meggalation, que eu trouxe com o intuito de me alimentar enquanto eu estivesse neste planeta, caiu nas graças de um rico comerciante local que acabou me comprando toda a criação por uma boa quantidade de dinheiro terráqueo, o que acabou me dando a possibilidade de me manter todos esses anos com relativa tranqüilidade no planeta. A galinha trinocular de Meggalation acabou virando uma das refeições tradicionais do Natal, com um nome esquisito de Chester, e sabiamente o rico comerciante sabendo de todo o preconceito terráqueo por aves de três olhos, e quem sabe o preconceito também se estenda para aves com dois bicos e pés de símios, nunca permitiu que ninguém tivesse contato com a nossa saborosa galinha para não perderem o apetite.

O turistas espaciais ainda poderão se deliciar com as belas árvores artificiais espalhadas pelas cidades, correrem os risco de sofrerem ataques epilépticos devido a luzinhas que não param de piscar por todos os lados, e se assustarem muito com a figura de um velho gordo que, segundo dizem, dá presentes às criancinhas. Quem menos é lembrado no natal é Jesus Cristo, o cara homenageado.

E para quem visitar o planeta e gostar do Natal uma boa notícia é que você poderá reviver esta bela festa duas semanas depois. Como os terráqueos nunca concordam em quase nada, de um lado do mundo o Natal é comemorado no dia 25 de Dezembro, no outro lado acontece no dia 06 de Janeiro, que é para onde eu estou indo neste exato momento.

Abraços e Saudações honrados congalaxianos. E um Feliz Natal!!!!

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Published in: on dezembro 26, 2009 at 1:17 pm  Deixe um comentário  

o Meu Primeiro Show

Não importa que você seja o cantor mais talentoso, o guitarrista mais habilidoso, o baterista mais carniceiro, o seu primeiro show sempre vai ser a maior lambança.

Inspirado em Diogo, baixista da banda que eu toco, e autor do blog www.vernissagecg.wordpress.com, onde escreveu um texto sobre seu primeiro show há três semanas atrás, que por sinal foi um desastre, eu decidi escrever a triste, melancólica e depressiva história do meu primeiro show, um conto comovente e patético, que por pouco não me fez abandonar a música antes de pegar gosto pela coisa.

No ano de 2002 juntamente com mais dois caras do curso de Comunicação Social eu montei uma banda punk chamada de Magal e os Estranhos. O nosso primeiro show aconteceria na antiga estação ferroviária de Campina Grande, onde hoje fica a Cachaçaria e o Magia do Verde, num festival de rock que teria mais 4 bandas.

Como os três éramos marinheiros de primeira viagem ficamos super ansiosos para a apresentação e chegamos no local do show uma hora antes do início. Foi quando recebemos a primeira má notícia e o sinal de que aquele festival não seria a maravilha que imaginávamos: nossa banda foi deslocada para fazer a última das 5 apresentações da noite, sabe-se lá Deus que horas seria, principalmente porque a primeira banda começou a tocar de meia noite.

Muitas horas e cochiladas depois, por voltas das 4:45h da manhã, com o sol quase raiando, quinze heróis permaneciam ainda na festa, porém uns sete estavam dormindo, o restante se dividiam entre bêbados e drogados num alto nível de entorpecência, que estavam mais interessados em ver o circo pegar fogo do que em curtir mais uma banda tocando rock. E para a sorte deles estava prestes a subir no palco uma banda estreante.

Nós subimos no palco com a nítida sensação de que estávamos sendo hostilizados pelos técnicos de som do festival, que ficou mais claro ainda quando eles não nos deixaram passar o som por razões óbvias que eles queriam sair dali o quanto antes para não dormirem em cima dos equipamentos.

Mal deu tempo de nos revoltarmos com esses sujeitos surgiu outro problema terrível: Meu pedal de distorção, que jamais quebrara antes e jamais voltou a apresentar defeito, não ligou. Tocar músicas punks com a guitarra sem distorção é como bandas de forró tocarem sem as dançarinas semi-nuas; não tem graça nenhuma.

Lá fora o mundo era plena calmaria, o sol acabara de nascer, as ruas ainda desertas, e talvez por não se ter muita coisa para vigiar Deus decidiu olhar um pouco para gente… e resolveu nos sacanear também.

No meu desespero para tentar ressuscitar minha pedaleira eis que quase sobrenaturalmente o microfone que estava num pedestal na minha frente cai sobre minha cabeça numa das cenas mais ridículas já vistas em shows musicais.

Com equipamento incompleto e ainda por cima desmoralizados, nossa banda tocou apenas sete músicas do que seria um total de vinte, porque para completar o baterista quebrou sua baqueta, e ainda tendo que aturar os oito entorpecidos que invadiam nosso palco e tomavam o microfone da mão do vocalista.

Já eram quase seis horas da manhã quando saímos cabisbaixos e calados do palco do nosso show de estréia. Tiago e Rodrigo, os outro integrantes, não paravam de me amaldiçoar por eu ter agendado outro show já no dia seguinte. Estávamos com fobia de subir ao palco novamente…

Mas assim como o primeiro show é sempre o pior, é uma regra desse meio musical o segundo ser sempre o melhor para compensar. E foi essa segunda apresentação animadora que deu o gás para Magal e os Estranhos tocarem por mais dois anos.

Insistentemente voltamos um ano depois para o palco do fatídico show para tentarmos nos redimir, e fizemos o segundo pior show da nossa curta carreira. Depois disso nunca mais voltei a pisar na antiga estação ferroviária, rolou um trauma. Muitos amigos até hoje tentam me levar na Cachaçaria, dizem que é um lugar legal. Mas eu não consigo, juro!

Published in: on dezembro 21, 2009 at 6:21 pm  Deixe um comentário  

Pedras, Poeira e Cinzas

O que mais cruzou o meu caminho?

Os espinhos em meus sapatos

Doem menos que os do meu coração

Nunca houve uma explicação

Em cada esquina um adeus

Em cada choro uma oração

Published in: on dezembro 18, 2009 at 2:11 pm  Deixe um comentário  

Nunca Mais

Naquele dia em nenhum outro lugar do planeta foi visto felicidade no mínimo parecida. Nem no canto matinal dos pássaros, nem no brilho dos olhos de uma criança, nem nas lágrimas de felicidade de uma mulher que acabara de ser mãe. O mundo inteiro prendeu o fôlego por uma milionésimo de segundo, num respeitoso silêncioso, antes de todos os átomos do planeta vibrarem no equivalente ao nirvana sonoro que emanava da boca de um homem, com as palavras: NUNCA MAIS.

E se dizem que a fé removem as montanhas, a felicidade faz com que elas surjam em qualquer lugar. E neste dia em especial brotaram montanhas nos desertos, nos mares e em até mesmo em cima de outras montanhas. Todas esperando ansiosamente que ele chegasse e as escalasse, para que, acima de tudo e de todos, ele reverberasse o seu fabuloso grito: NUNCA MAIS.

E neste dia foram esquecidos para sempre os antigos provérbios que falavam sobre o eterno, e que entravam em contradição com aquela invocação sagrada. O mundo continuou dando voltas, mas jamais se atreveu a dar uma lição naquele que o provocava, pois no alto de tamanha soberba se transmitia uma infinita e solene sinceridade. Deus permitiu e os anjos cantaram em uníssono: NUNCA MAIS, NUNCA MAIS, NUNCA MAIS.

Published in: on dezembro 4, 2009 at 7:04 pm  Deixe um comentário  

Cem Anos de Solidão

“Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade  até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo que o que ele ensinara do mundo e do coração humano, e que em qualquer lugar que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera.

Álvaro foi o primeiro a seguir o conselho de abandonar Macondo. Vendeu tudo e comprou uma passagem eterna num trem que nunca acabava de viajar.”

Trecho do melhor livro (na minha humilde opinião) já escrito em terras latino-americanas. Cem Anos de Solidão do colombiano Gabriel Garcia Marques, ganhador do Nobel de literatura.

Published in: on dezembro 4, 2009 at 6:25 pm  Comments (1)