O Diário de Um Estudante de Comunicação Social

A vida é realmente um troço curioso.

Há bastante tempo atrás, quando eu cursava jornalismo pela manhã, preenchi minhas noites como monitor da sala de informática do curso. Com poucos dias já havia me arrependido.

Era um trabalhinho bem pé-no-saco. Eu chegava as cinco horas da tarde, ligava os computadores e ficava esperando até as sete horas, num tédio imbecilizante em frente ao computador, a chegada dos primeiros alunos do curso. Era então que a coisa piorava, não existia sossego. Eu tinha que aguentar até às nove e trinta os alunos me enchendo a paciência reclamando que o computador quebrou, que a impressora não tinha tinta, que não estava conseguindo acessar a internet, etc. Eram duas horas e meia de um aborrecimento agoniante que só cessava quando eu expulsava na base do “vou desligar tudo e deixar você trancado aqui no escuro” o último atrevido que fingia que estava estudando para ficar batendo papo em chats da vida. Eu sempre me questionava qual seria pior: o tédio imbecilizante ou o aborrecimento agoniante?

Um dia eu estava particulamente entediado e escrevi um texto. Não era pra ter sido nada demais, este texto era para ter desaparecido para sempre junto com todos os arquivos que eu perdi após um vírus ter atacado meu computador uma semana depois. Mas graças a este texto eu consegui duas coisas: Conquistei a amizade de uma menina que antes só costumava encher minha paciência, e depois disso continuou enchendo minha paciência, porém de uma forma mais amável. E a outra coisa foi ter conquistado a simpatia de uma professora que acabou me aprovando na sua disciplina mesmo sem eu ter dado as caras durante o último bimestre inteiro.

Um saldo bem positivo para um textinho só, bem mal escrito na verdade, e que eu achava que já o havia perdido para sempre quando outro vírus um ano depois resolveu atacar novamente meu computador. Qual não foi minha surpresa quando aquela menina que enchia meu saco, e continuava me enchendo mesmo estando a centenas de quilômetros de distância, e que se chama Ana Paula, mas tem a ousadia de se proclamar Beleza Impoluta, me confessou que havia guardado este texto com ela após tantos anos. Pois bem, ela me enviou e eu estou postando para vocês não porque ele seja um bom texto, nem muito menos porque eu ache que ele vai me fazer pagar outra disciplina, mas apenas como um testemunho das coisas contraditórias da vida, onde se escrevem cartas de amor que nunca são correspondidas, e num texto sem pretensão brota uma amizade imprevisível (e uma aprovação invisível).

O Diário de Um Estudante de Comunicação Social

Segunda-feira, 5:30h – Acabei de acordar, graças ao pedreiro que está fazendo um serviço aqui em casa.  Pelo amor de Deus, por que os pedreiros não trabalham em horas normais como todo mundo? O pior é que fui dormir de duas horas da manhã, não deu tempo nem da ressaca chegar ainda. Cada martelada que ele dá, próximo à janela do meu quarto, desencadeia umas dez latidas do meu cachorro, que também desencadeia mais umas tantas do cachorro do meu vizinho. Se me serve de consolo, acho que não fui o único da rua que acordei nesse horário por conta do barulho.

Segunda-feira, 6:30h – Depois de um café da manhã reforçado (uma vitamina de banana), estou pronto pra ir à faculdade. Mas antes tenho que passar pelo pedreiro e, particularmente, estou com vontade de esganá-lo. Lá está ele, tudo que eu poderia desejar de mal estou pensando, mas ele olha pra mim, sorri e diz: “Bom Dia!”. Nada poderia ser mais frustrante, ele conseguiu fazer eu me sentir mais mal do que já estava. Como é chato quando uma pessoa que nós desejamos o pior age simpático conosco. Maldito pedreiro covarde, você é baixo!

Segunda-feira, 7:20h – Já deixei passar três ônibus, mas não tem jeito, vou ter que ir pendurado na porta mesmo. Nós que andamos pendurados nas portas de ônibus lotados aprendemos a ser mais solidários, esse é o motivo pelo qual eu não empurrei o cara que se agarrava à minha barriga, sempre que o ônibus dava uma freada brusca.

Segunda-feira, 7:50h – Cheguei na sala de aula 20 minutos atrasado, e minha única colega que havia chegado até esse horário me avisou que a professora não viria pois estava com dengue. Pobre professora, esta é a sétima virose nos últimos dois meses, ela precisa se cuidar. Ficamos jogando papo fora, até que vai chegando uma mulher após a outra na sala, e a conversa que estava até legal, agora com várias mulheres, se modificou. O assunto era a novela, e isso era demais para um cara com um QI tão desenvolvido como o meu. Procurei uma rodinha de intelectuais, dessas que tem em todas as universidades, mas não tanto quanto na universidade de comunicação social, e passamos um bom tempo falando sobre futebol e Dragon Ball Z.

Segunda-feira, 9:00h – Finalmente a mulher da Xerox vai começar a atender. O problema é que a máquina leva alguns minutos pra esquentar. Mas não importa, o que incomoda são dois pseudo-sabichões aqui do meu lado, fazendo críticas contra o governo e contra o “sistema”. Eles falam tão bonito, mas não se aproveita nada. Tem um que anda com uns três livros na mão, o outro com uma biografia de Karl Marx. É interessante que uma universidade que tenha tantas pessoas que acham que sabem de tudo, tenha conceito “C”.

Segunda-feira, 9:30h – A máquina está quase boa, e eu acabei de saber que o professor não vem para a segunda aula, pois o pneu do seu carro furou. A infraestrutura dessa cidade está realmente péssima, e na região do professor principalmente, já é a terceira vez esse mês que o coitado tem o pneu do seu carro furado.

Segunda-feira, 10:05h – Finalmente recebi minha Xerox. Eu devo estar com a vista ruim porque não enxergo nada. Mas tudo bem. Para não ter a manhã perdida vou dar uma passadinha na sala de informática para digitar alguns trabalhos.

Segunda-feira, 10:07h – Todos os três computadores da sala de informática estão travados. Mas eu não posso reclamar, foi a primeira vez que isso aconteceu geralmente só dois computadores estão travados, o jeito é ir pra casa.

Segunda-feira, 10:35h – Eu sempre evitei esperar meu ônibus na Praça da Bandeira, para não correr o risco de cruzar com aqueles insuportáveis peruanos que tocam músicas dos Beatles em flautas de bambus, empurram CDs em cima de você e ainda dã uma de curandeiros. Mas hoje eu encontrei uma modalidade mais insuportável do que os insuportáveis peruanos que tocam músicas dos Beatles, são os insuportáveis peruanos que tocam músicas de Michael Jackson. Que horror!!!

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Published in: on novembro 19, 2009 at 6:45 pm  Comments (1)  

Cobras

BurrsBlackCobras

 

Neste covil de cobras

Nenhuma me engana

Nenhuma resiste à força da minha presença

 

Suas cabeças

Foram destinadas por Deus

A serem esmagadas pelos meus pés

 

Às vezes

Elas me mordem o calcanhar

Mas eu possuo todos os antídotos

Porque eu já experimentei

Todos os seus venenos

E hoje, cobras

Toda a dor que vocês me proporcionam

É apenas superficial

 

Vou sorrindo sem me descuidar

Pois meu bote

Este sim é fatal

Published in: on novembro 3, 2009 at 7:24 pm  Deixe um comentário